Tradicionalmente marcada pelo comércio movimentado e grande fluxo de pessoas, a Zona Leste enfrenta um problema que vem tirando o sono de moradores e comerciantes: a crescente insegurança no entorno do Shopping Aricanduva, o maior complexo comercial da América Latina, e nos bairros vizinhos, como Vila Matilde, Jardim Aricanduva e São Mateus.
Nos últimos meses, relatos de assaltos a pedestres, furtos de celulares, ataques a motoristas e arrombamentos de veículos estacionados nas imediações se multiplicaram. As redes sociais locais tornaram-se espaços de desabafo e alerta.
“Eu vinha do ponto de ônibus e fui abordada por dois rapazes em uma moto. Levaram meu celular e bolsa. Não foi nem 30 segundos”, conta a balconista Maria Eduarda Ferreira, 27 anos, que trabalha em uma loja próxima ao shopping.
De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), a região registrou aumento nas ocorrências de roubo e furto no primeiro semestre de 2025, especialmente em áreas próximas a grandes centros comerciais e corredores de transporte público. Foram registrados 277.063 casos ante 275.071 em 2024.
Medo afeta rotina e comércio
O receio de ser vítima de crimes vem mudando a rotina dos moradores. Muitos evitam circular a pé após o anoitecer e preferem aplicativos de transporte a ônibus ou metrô, mesmo que isso pese no bolso. Comerciantes afirmam que o movimento noturno caiu.
“Depois das 19h, quase não tem cliente. As pessoas têm medo de parar para comprar um lanche e serem assaltadas. Isso afeta muito o faturamento”, lamenta João Batista, 52 anos, dono de uma lanchonete na Avenida Aricanduva.
Além dos crimes contra pedestres, furtos de veículos em estacionamentos e vias públicas também têm preocupado. “Você deixa o carro aqui na frente e, quando volta, encontra o vidro quebrado. É um prejuízo enorme”, relata André Carvalho, motorista de aplicativo.
Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, em 2024 foram registrados 45.567 casos de furto de veículos, enquanto neste ano, 44.165. Apenas 1.402 a menos com relação ao mesmo período do ano passado.
Policiamento e medidas preventivas
A Polícia Militar afirma que tem intensificado o policiamento ostensivo na região, com rondas a pé, viaturas e motocicletas, além de operações pontuais de combate a crimes patrimoniais. Em nota, a corporação orienta que a população registre boletins de ocorrência sempre que for vítima ou presenciar delitos, para que os dados alimentem o planejamento estratégico.
Especialistas em segurança defendem uma abordagem integrada: mais câmeras de monitoramento, iluminação pública eficiente, reforço policial e ações sociais que combatam a vulnerabilidade. “Segurança pública não se resolve apenas com polícia. É preciso pensar em urbanismo, oportunidades e presença comunitária”, explica o sociólogo Ricardo Fonseca, da Universidade de São Paulo (USP).
Sensação de impunidade
Apesar das medidas anunciadas, moradores afirmam que a sensação de impunidade continua forte. Casos de crimes praticados por adolescentes, que muitas vezes são liberados logo após a apreensão, reforçam essa percepção. “A gente vê a pessoa que nos assaltou de novo na esquina dias depois”, diz Maria Eduarda, estudante, que teve o celular roubado por um jovem de bicicleta, em abril deste ano, quando saia do Shopping.
Enquanto isso, grupos de moradores organizam redes de WhatsApp para trocar informações e alertar sobre suspeitos. Alguns comerciantes já estudam contratar segurança privada para atuar no período noturno.
Impacto além do entorno
O Shopping Aricanduva, um dos maiores centros comerciais da América Latina, atrai diariamente milhares de consumidores, o que torna a região um pólo natural de circulação e, consequentemente, de oportunidades para criminosos.
Os reflexos dessa insegurança ultrapassam os limites geográficos do bairro, afetando bairros como Cidade Líder, Jardim Têxtil e Sapopemba.
“É triste, porque aqui sempre foi um ponto de encontro para compras e lazer. Agora, saímos olhando para todos os lados e contando os minutos para voltar para casa”, lamenta Helena Souza, frequentadora do shopping.
O que vem pela frente
A Prefeitura de São Paulo afirma estudar, em conjunto com as polícias Civil e Militar, medidas para ampliar a segurança na região, incluindo a instalação de mais câmeras de vigilância integradas ao sistema City Câmeras.
Enquanto soluções estruturais não chegam, o conselho de especialistas é claro: evitar exposição de celulares e objetos de valor em locais públicos, escolher rotas mais movimentadas, circular em grupo sempre que possível e, sobretudo, registrar qualquer ocorrência.
Para quem vive e trabalha na região, a esperança é de que o Aricanduva volte a ser sinônimo de comércio forte e convivência segura em vez de medo e preocupação.
Reportagem: Da redação. Foto: Divulgação.
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