quinta-feira, 5 de março de 2026

O preço do crescimento: a verticalização faz bem ao Carrão?

Como a construção de dezenas de edifícios pode transformar o dia a dia de uma região? Lugares que antes eram pacatos, sossegados, com paisagens deslumbrantes, hoje encontram-se rodeados de espigões suntuosos e que proporcionam todo tipo de conforto, tais como cinema, mercado, espaço pet, serviços básicos de forma que o morador só sai do condomínio se quiser ou para trabalhar.

O Tatuapé assiste a essas mudanças desde o início dos anos 90, quando as grandes construtoras enxergaram no bairro e na grande quantidade de lotes e áreas antes pertencentes à fábricas como a Tabacow, uma oportunidade a quem queria morar no bairro.

Atualmente, com 108 anos, a Vila Carrão parece entrar no grupo dos típicos bairros de São Paulo que passam pelas mesmas mudanças: o que antes eram áreas planas, agora, existem canteiros de obras e grandes espigões.

A paisagem muda, o perfil dos moradores também – e com isso surgem impactos positivos e negativos, que levantam algumas perguntas: qual o verdadeiro custo desse crescimento? O bairro deixa de ser o que é? Quem ganha e perde com isso? É seguro adquirir um destes imóveis?

A proximidade com bairros valorizados como Tatuapé e Mooca, a infraestrutura consolidada (comércios, escolas, transporte), a expansão da Linha 2 Verde do Metrô e os preços ainda relativamente mais acessíveis, tornaram a Vila Carrão atraente para o mercado imobiliário.

Incorporadoras encontraram no bairro uma “nova fronteira” para expansão, voltada à classe média e média-alta.

Alguns novos canteiros se formam em endereços como avenida Conselheiro Carrão, nº 2.111; avenida Conselheiro Carrão, nº 1.563; rua Renato Rinaldi, nº 502; rua Nhandeara, nº 80 e avenida Dezenove de Janeiro, nº 160, dando uma ideia de como um dos bairros mais tradicionais ficará em breve. 

“O Carrão sempre foi um bairro gostoso, foi o bairro dos meus pais, onde cresci, depois casei e voltei pra cá, aqui mesmo onde moro tem alguns poucos condomínios e gosto de como a rua é calma, sabe, não perde o ar de interior. Eu gostaria de que continuasse assim, mas por outro lado, o progresso traz mais empregos, movimenta melhor a economia e com isso, o bairro também se mantém mais moderno e valorizado”,afirma Raquel Vieira, advogada, residente na rua Lutécia.

Impactos na paisagem e identidade do bairro
A demolição de casas  e sobrados antigos para a construção de torres residenciais altera a estética urbana e pode descaracterizar a história do bairro. 

Moradores antigos relatam sentir-se “espremidos” em apês, enquanto a memória afetiva de ruas tranquilas se desfaz. “Eu não gosto de apartamento, é muita regra, pouco respeito, eu senti muita falta da minha casa, quando vivi em apartamento. Quando me desfiz do meu e comprei a minha casa aqui na Alameda, passei a ter mais liberdade e com as mesmas vantagens de um condomínio, como a segurança, por exemplo. A paisagem é outra coisa importante, você enxerga o céu em vez de um monte de concreto. Nisso, os bairros perderam, as casas antigamente tinham mais beleza, espaço, conforto e menos dor de cabeça que os ‘micro-espaços’ vendidos por aí”,comenta Luzia Moraes, moradora da Alameda Rainha Santa, no Carrão.    

Valorização imobiliária e exclusão social
A verticalização costuma vir acompanhada da valorização dos imóveis, revitalização local e uma melhor infraestrutura o que pode ser positivo para proprietários, mas também gera risco de que moradores tradicionais – principalmente inquilinos e famílias de baixa renda, sejam forçados a se mudar devido ao aumento nos aluguéis e no custo de vida.

“Não tem como a gente prever um impacto negativo, mas uma coisa é fato: Um prédio de 15, 20 andares, que traz para a rua mais de mil famílias novas, traz também com elas mais mil pessoas para comprarem roupas, comida, remédios, para visitarem as ruas, os comércios, traz gente empreendedora, que pode ainda investir na região e aumentar o potencial de emprego e renda local. Isso aconteceu no Tatuapé, por exemplo, que hoje é considerado bairro nobre. Quem não quer um bairro com infraestrutura melhor, com segurança, lazer, saúde e tudo que se precisa pra viver?”, afirma João Carlos, corretor de imóveis e morador da Vila Carrão há 37 anos.

Pressão sobre a infraestrutura urbana
Com mais moradores por quarteirão, surgem novos desafios: aumento no trânsito, maior demanda por vagas em escolas públicas, unidades de saúde e serviços de saneamento. A infraestrutura da Vila Carrão foi pensada para um bairro horizontal – e agora é colocada à prova.

“Aqui na Mooca, vivemos essa dura realidade há uns dois anos, desde que me mudei. Quando falta energia, falta por dois, até 3 dias e olhe que estamos ao lado do metrô Bresser. Ocorre que a área, antes ocupada por fábricas como a antiga Alpargatas e casas mais simples, está recebendo várias torres e os transformadores das ruas, as fiações antigas, não dão conta de abastecer a região. Resultado: estouram e todos ficam no escuro”, afirma Maria Alice, que deixou sua casa em Guaianases para morar na Mooca, mais perto do trabalho.

É um dos pontos que o poder público precisa resolver para melhorar a qualidade de vida de quem se muda para esses empreendimentos.   

Quem ganha com essa transformação?
Empreiteiras, investidores e parte da classe média que busca moradia nova em regiões com “cara de bairro” são os maiores beneficiados. Especialistas afirmam que pequenos comércios também podem sair no lucro com o aumento da clientela. Por outro lado, moradores antigos e grupos mais vulneráveis sofrem com a transformação rápida e, muitas vezes, sem planejamento participativo.

“Eu não vejo a hora de que esses condomínios fiquem prontos. Antes, a faculdade aqui do lado movimentava bem o mercado, mas com essa modalidade EAD, baixou muito o número de estudantes que vem almoçar. Agora, com esses prédios prontos, acredito que o movimento vai aumentar bastante, nem que eu leve as marmitas lá dentro para cada apartamento”, comenta o comerciante Manuel Bernardes, dono de uma cantina há mais de 40 anos na Cesário Galeno, em frente ao antigo terreno da extinta Tapeçaria Chic, que agora dará lugar a um suntuoso condomínio.

Contudo, porque a Vila Carrão está se tornando a “bola da vez” no mercado imobiliário? Segundo o SECOVI-SP, a explicação é essa:

É seguro adquirir um imovel na planta?
Sim, desde que os lançamentos estejam devidamente constatados no Cartório do Registro de Imóveis e o mesmo também deve possuir a Certidão da Matrícula. Verifique sempre o CRECI do corretor(a), não importa a construtora.

É importante estudar bem os valores de entrada, as parcelas e o financiamento. É importante verificar se os prazos de pagamento da entrada e do financiamento não se “embaralham” apertando o orçamento doméstico. 

E sempre, verifique se dentro do seu próprio holerite, cabe o valor do financiamento com o banco. Se não couber, acumular as rendas da família pode ser um tiro no pé:

“Tem casos por exemplo de pessoas que juntam a renda do pai, da mãe, do irmão, que é para o banco aprovar o financiamento. Só que quando sai o financiamento, o valor compromete 60, 80% da renda do comprador, que se enforca e não consegue manter o pagamento em dia. Tem que tomar esse cuidado, se não tiver condições de arcar sozinho, é melhor esperar”, afirma o corretor de Imóveis e ex-proprietário de imobiliário, Oswaldo Lima.

Reportagem: Da redação. Foto: Divulgação.

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