Em pleno século XXI, um pedaço importante de São Paulo, localizado no bairro Carrão, ainda não conta com esgoto canalizado. E o pior, a população local que paga caro o IPTU, dentre outras contas de luz, água (incluindo saneamento básico), padece com o mau cheiro que esse mesmo esgoto, despejado no Córrego Rapadura, exala pela região.
O Córrego Rapadura, um dos cursos d’água que cortam a Zona Leste, recebe visivelmente o despejo direto de esgoto doméstico, prática ilegal que deveria ter sido extinta há décadas com a ampliação da rede de coleta da cidade. Embora um dos lados do leito já tenha passagem canalizada, o lado oposto permanece vulnerável, permitindo que residências sigam lançando dejetos sem qualquer fiscalização. Resultado: um fluxo constante de água contaminada, exalando odores fortes e atraindo diversos vetores de doenças.
O senhor José Eudes, morador da rua Zodíaco há 15 anos, afirma: “Eles canalizaram apenas um dos lados. O outro, a gente vê o cocô das pessoas que moram do outro lado, descendo pelos canos, rolando e exalando cheiro forte pelo quarteirão. Quando chove, a água sobe um pouco e esses dejetos ficam presos nas grades de contenção. Resultado: o fedor fica insuportável principalmente quando as temperaturas sobem. Eles colocaram algumas tampas de esgoto para limpeza pela rua, mas cadê a subprefeitura pra vir aqui limpar essa sujeira? Quando, afinal esse esgoto vai ser também canalizado?”, questiona o morador indignado.
Além do desconforto, há o risco sanitário. O cenário do Córrego Rapadura se tornou um ponto de proliferação de insetos e animais considerados pragas urbanas. Entre os que mais assustam a vizinhança estão os ratos, as cobras e os escorpiões, frequentemente avistados nas margens do córrego. Baratas e mosquitos, sobretudo o Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya, também fazem parte do cotidiano de quem vive nas proximidades.
Apesar da gravidade, até agora a Subprefeitura Aricanduva/Formosa/Carrão não se manifestou publicamente sobre qualquer plano de intervenção estrutural ou limpeza emergencial no local. A ausência de posicionamento reforça a percepção de abandono. Moradores afirmam que, mesmo com reclamações encaminhadas por protocolos, aplicativos e reuniões comunitárias, o retorno tem sido inexistente.
Para os comerciantes, os prejuízos não são apenas ambientais ou de saúde, mas sim, econômicos. Lojas relatam queda nas vendas, principalmente no verão, quando o mau cheiro se intensifica. Restaurantes e pequenos mercados são os mais afetados, já que o odor afasta consumidores e compromete a imagem do estabelecimento. “Não tem como atrair cliente com esse cheiro. A gente cuida da limpeza interna, mas o problema está do lado de fora”, reclama um proprietário de lanchonete.
Moradores esperam que a Subprefeitura e a Sabesp assumam suas responsabilidades. Entre as demandas imediatas estão: limpeza do leito, desassoreamento, eliminação de despejo irregular de esgoto, canalização completa do córrego e ações de combate a vetores. Sem isso, o Rapadura continuará sendo não apenas um incômodo, mas uma ameaça real à saúde pública.
Reportagem: Fernando Aires. Foto: Divulgação.
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