sexta-feira, 20 de março de 2026

“Eu amo ‘rasgar’ dinheiro” é a placa que todo paulistano está pagando

Que cada bairro de São Paulo possui a sua individualidade e beleza particular, não se discute. Em razão da imigração de estrangeiros de todas as partes do mundo, São Paulo é conhecida como a maior das capitais estrangeiras dentro de um único país. É o caso da Vila Carrão, que, por exemplo, se desenvolveu graças à forte presença da comunidade japonesa, ou do Tatuapé, com a comunidade portuguesa, e mesmo a Mooca, com a italiana. A região da Liberdade com a comunidade chinesa, o Ipiranga, com a comunidade árabe e por aí vai. 

No entanto, de 2021 para cá, a moda é a instalação de placas de “boas vindas”, no início ou término de cada bairro ou região da Subprefeitura local.

Não seria nenhum problema, não fosse a disparidade nos valores pagos para instalação destas placas. Um levantamento da Agência Mural mostra que, até 2025, cerca de 40 placas foram instaladas em diferentes pontos da capital, especialmente nas periferias – totalizando quase R$ 13 milhões em gastos públicos. 

Os valores, no entanto, não seguem um padrão claro: enquanto o letreiro “Eu amo Carrão” foi implantado por cerca de R$ 30,9 mil, o painel gigante de Campo Limpo custou R$ 5,8 milhões – mais do que a soma de todos os letreiros instalados na zona leste da cidade.

Questionadas, a Subprefeitura de Campo Limpo explicou que os letreiros muitas vezes estão “alinhados” com projetos de revitalização local e que os valores somados, incluem também outras melhorias. Contudo, além de tais melhorias serem inexistentes, em muitos casos, a documentação enviada às autoridades e ao Sistema Eletrônico de Informações (SEI) da Prefeitura de São Paulo é incompleta ou sem transparência, dificultando entender quais atividades e serviços estão incluídos nos contratos.

Nestas circunstâncias, é impossível entender, o porquê de o letreiro de Vila Prudente, de 7,45 m de largura, custar aos cofres públicos R$ 148,8 mil, quase três vezes mais caro que um painel de tamanho aproximado em outra região.

Comissão de gestão foi ignorada 

Desde 2023, uma comissão técnica vinculada à Secretaria Municipal de Cultura – a Comissão de Gestão de Obras e Monumentos Artísticos em Espaços Públicos – tem se posicionado contra a instalação de muitos desses letreiros, alegando que eles não refletem necessariamente uma identidade local e descaracterizam o patrimônio urbano.

Uma representante da comissão chegou a afirmar, em ata oficial, que tais “Obras não refletem, necessariamente, uma identidade local”, um posicionamento que reflete ceticismo em relação ao impacto cultural real dessas intervenções.

Segundo a Comissão: “A aprovação dos letreiros abriria precedentes para que outros bairros pudessem implantar obras semelhantes, descaracterizando a singularidade de cada local. Se é uma proposta das subprefeituras de criar para todos os bairros, precisamos ter um regramento e entender que demanda é essa. Você diminui esses locais, porque tudo parece a mesma coisa, quando cada bairro é único e tem sua história. Tem também a manutenção, porque é mais um elemento para cuidar. Se a comissão aceitar essas obras, ela entra em nosso acervo e você precisa cuidar como cuida de um monumento a Carlos Gomes ou do mesmo jeito que cuida do Monumento às Bandeiras”, o que implica em maiores gastos públicos. 

Apesar disso, as subprefeituras prosseguiram com as instalações mesmo após pareceres desfavoráveis. Em vários casos, as placas foram colocadas antes de qualquer retorno da comissão ou até mesmo contra sua recomendação – por exemplo, no entorno de bairros como Penha, Cangaíba, Vila Matilde e Artur Alvim. 

Procuradas, as subprefeituras não se pronunciaram. 

Enquanto milhões são investidos nessas placas, há vozes críticas questionando se essa é a melhor utilização de recursos públicos, especialmente em uma cidade com demandas urgentes em infraestrutura básica, segurança, saúde e cultura comunitária.

Para muitos moradores e especialistas, a falta de critérios técnicos claros para instalação e valorização desses letreiros evidencia não apenas um possível desperdício, mas também a ausência de participação mais cuidadosa da população na definição de prioridades urbanas.

Afinal, o paulistano está “podendo” tanto assim, para esbanjar em busca da foto perfeita? Talvez seja o momento de trocar o filtro e aplicar um outro mais condizente com a realidade de São Paulo.

Reportagem: Fernando Aires. Foto: Divulgação.

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