Promotoria do Meio Ambiente encaminha ofícios à CETESB e à Subprefeitura Aricanduva/Formosa/Carrão e dá prazo de 30 dias para esclarecimentos sobre a área do antigo Cotonifício Guilherme Giorgi. Cury tem 15 dias para apresentar explicações.
A obra do empreendimento imobiliário da Cury na região da rua Lutécia, no Carrão, ganhou um novo capítulo. O Ministério Público do Estado de São Paulo, por meio da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente da Capital, encaminhou três ofícios – sendo 2 a órgãos públicos solicitando esclarecimentos sobre a situação da área onde está sendo implantado o empreendimento.
Os documentos, assinados pela 2ª Promotora de Justiça do Meio Ambiente da Capital, Drª Juliana de Sousa Andrade, integram a Notícia de Fato nº 0482.0000544/2026 e foram expedidos em 28 de agosto de 2026.
Um dos ofícios foi destinado ao subprefeito de Aricanduva/Formosa/Carrão, Rafael Meira. O Ministério Público encaminhou cópia da notícia de fato e solicitou esclarecimentos sobre os fatos alegados, estabelecendo prazo de 30 dias para resposta.
O segundo documento foi encaminhado ao presidente da CETESB, Thomaz Miazaki de Toledo. Neste caso, a Promotoria foi mais específica e solicitou que o órgão ambiental informe se a área é objeto de investigação, além de prestar os esclarecimentos considerados necessários. Também foi estabelecido prazo de 30 dias.
Quanto à Cury, a promotoria concedeu um prazo menor, de 15 dias, solicitando explicações e manifestação diante do caso – que possui “elevada consideração”.
Apuração chega aos órgãos responsáveis
A iniciativa do Ministério Público ocorre depois de uma sequência de questionamentos envolvendo a situação ambiental e urbanística do empreendimento Novo Mundo Carrão I e II, da Cury, instalado na área do antigo Cotonifício Guilherme Giorgi.
Em reportagem publicada em 6 de agosto, os veículos Jornal de Vila Carrão, SP Jornal, Conexão Paulistana e ZL Notícias mostraram que informações da CETESB indicavam a existência de processo de gerenciamento de contaminação na área, incluindo o Processo CETESB nº 053945/2025-18, relacionado à avaliação preliminar e investigação confirmatória de área com potencial de contaminação.
Na ocasião, a CETESB informou que o terreno havia sido desmembrado pela Prefeitura e que parte dos lotes já havia passado por remediação e sido liberada para determinados usos, enquanto outras intervenções permaneciam em andamento, com previsão de conclusão para setembro de 2027.
No mapa de áreas contaminadas da Cetesb, os lotes liberados não fazem parte da obra, que já iniciou nos lotes F e G do terreno.
A própria reportagem também mostrou que o Lote C, atribuído nos documentos consultados à Quiron Incorporadora, aparecia classificado pela CETESB como Área Contaminada sob Investigação (ACI). Já os lotes F e G, onde a Cury afirma concentrar as obras, foram apontados pela Prefeitura como áreas que não se enquadram, segundo análise da CETESB, como ACI ou Área Contaminada com Risco Confirmado, desde que fossem cumpridas as condicionantes estabelecidas e acompanhamento em caso de indícios e contaminação.
Questionados sobre quais eram tais condicionantes e quais indícios de contaminação poderiam ocorrer, ninguém respondeu.
Secretaria mudou posicionamento sobre os alvarás
A questão urbanística também passou por uma mudança de interpretação por parte da Prefeitura. No dia último dia 11, em resposta à nossa reportagem, a SMUL afirma que o portal “erra ao afirmar que a SMUL “voltou atrás” ou informou a existência de Alvará de Execução para o lote C. Os alvarás mencionados referem-se aos lotes F e G, que possuem processos próprios de licenciamento e avaliações ambientais específicas”.
A questão, primeiramente, é que a reportagem é clara, e afirma que os alvarás pertencem aos lotes F e G. E sim, a SMUL voltou atrás em suas notas, que já foram publicadas.
Essa divergência entre as primeiras informações oficiais e o esclarecimento posterior ampliou os questionamentos sobre a documentação e a situação específica de cada lote.
Na mesma nota, a SMUL afirma: “A indicação de potencial ou suspeita de contaminação não significa, por si só, que o imóvel esteja contaminado, mas sinaliza a necessidade de avaliação pelos órgãos ambientais competentes. É essa análise técnica que determina a situação ambiental da área e as eventuais condições para sua ocupação”.
É onde a reportagem questiona: Pode construir independente dessa análise técnica?
Cury afirma cumprir exigências
Procurada anteriormente, a Cury afirmou que atua em conformidade com a legislação ambiental e urbanística e que atende às diligências dos órgãos reguladores.
Em manifestação publicada em reportagem anterior, a empresa também afirmou que as obras em andamento estão restritas aos lotes F e G, que, segundo a construtora, possuem os alvarás de execução e pareceres favoráveis da CETESB. Sobre o Lote C, a empresa declarou que não havia obras nem lançamento comercial.
Contaminação por PAH
Através do GEOSAMPA, que é o portal de mapas e a plataforma digital oficial de informações georreferenciadas da cidade de São Paulo, gerenciado pela SMUL, com informações da Cetesb, Sipol e Sigac, ao se pesquisar a área, nota-se, a marcação do terreno onde se encontram os lotes como “área contaminada, sob investigação, remediada e liberada” e os lotes onde se constrói a obra com a classificação “Área contaminada sob investigação”. E o tipo de contaminante é o PAH.
Segundo informações técnicas do próprio site do governo Federal, o PAH (Hidrocarbonetos Aromáticos Policíclicos) são compostos químicos formados pela combustão incompleta de materiais orgânicos, carvão, petróleo e madeira. Eles persistem no meio ambiente como poluentes tóxicos e potenciais agentes cancerígenos.
Anúncio de imóvel no Carrão com registro em Pirituba
Sobre o registro de imóveis, outra curiosidade no mínimo estranha foi descoberta nos anúncios da Construtora pela internet, sobre o lançamento do Carrão. Em duas páginas aparece o registro de imóvel correspondente aos respectivos Lotes F e G, contudo, em outra página, o anúncio que faz menção ao imóvel do futuro empreendimento no Carrão, está com registro nº 21.952 no 16º cartório, que pertence a outra área localizada em Pirituba.
Até mesmo os dados técnicos do futuro imóvel não batem. A página foi impressa em pdf e abaixo, seguem os trechos da mesma que podem ser conferidos no link – que também foi encaminhado à Construtora. A Construtora também foi questionada sobre esse fato, mas simplesmente não respondeu.
E por fim, novamente perguntamos: diante de tantos fatos estranhos e confusos, seria possível ignorá-los? Estaria, por acaso, os dados da Cetesb em órgãos oficiais da prefeitura desatualizados ou mesmo equivocados? Estaria a Construtora certa em comercializar empreendimento de um local com registro de imóveis pertencente a outro? Estaria certa em não esclarecer sobre as medidas adotadas para proporcionar mais segurança a todos? Se uma área próxima ao estande é contaminada, tal contaminante não pode se espalhar pelo ar ao redor? Se é cancerígeno, sua remediação não é de interesse público?
Quem sabe, diante agora do Ministério Público, a atenção e os esclarecimentos sejam melhor prestados. Não é a reportagem que exige, é a comunidade do Carrão que deseja essas respostas e claro, merece o mínimo de respeito da empresa e dos órgãos públicos.
Reportagem: Fernando Aires. Foto: Divulgação.
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