sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Valêncio: Fé – Mediunidade e as lembranças de Chico Xavier

Aos 67 anos, o advogado e dirigente espírita, Henrique Valêncio, do Centro Espírita Bênção de Paz, no Carrão, revisita sua trajetória na Doutrina Espírita, os encontros que teve com Chico Xavier e os ensinamentos que, décadas depois, continuam orientando sua caminhada.

Há encontros que atravessam o tempo. Para Henrique, conhecer Chico Xavier, em 1977, quando tinha apenas 18 anos, foi um desses momentos. O que começou com certa desconfiança em relação ao Espiritismo transformou-se, ao longo de quase cinco décadas, em uma trajetória de dedicação à Doutrina, à mediunidade, à educação e ao trabalho de acolhimento.

Paulista de Agudos, advogado, casado, pai e avô, Henrique encontrou no Espiritismo um caminho de estudo e serviço. Desde os primeiros contatos com o Centro Espírita Perseverança, em São Paulo, até sua atuação no Centro Espírita Bênção de Paz, na Vila Carrão, sua caminhada foi marcada pela convivência com diferentes pessoas e, especialmente, pelas experiências que vivenciou ao lado de Chico Xavier.

Nesta entrevista, Henrique compartilha memórias de encontros com o médium, episódios que testemunhou pessoalmente e ensinamentos que, segundo ele, permanecem atuais diante dos desafios da sociedade. Confira:

SP Jornal: Henrique, antes de falarmos sobre Chico Xavier, gostaríamos de conhecer um pouco da sua história. Quem é o senhor, de onde veio e como a espiritualidade entrou na sua vida?
Henrique Valêncio: Eu sou paulista, nascido em Agudos, há 67 anos, casado, pai, avô, advogado. De origem e criação Católica Apostólica Romana, fui apresentado à Doutrina Espírita em 1977, quando conheci o Centro Espírita Perseverança, tradicional Casa Espírita de São Paulo. Desde então, tenho militar como servidor do Espiritismo, especialmente nas áreas de divulgação e educação, ocupando atualmente cargo na direção do Centro Espírita Bênção de Paz, desde a sua abertura ao público, em 1.994.

Em que momento o senhor percebeu que tinha uma ligação mais profunda com a mediunidade e decidiu assumir esse caminho dentro do Espiritismo?
Não foi de imediato, confesso. A primeira impressão era de que o Espiritismo não era para mim, rs. Porém, fui extremamente bem acolhido pelo Perseverança, especialmente por Dona Guiomar de Oliveira Albanesi, sua fundadora e presidente até hoje. Ela logo me colocou na Escola de Médiuns e nos trabalhos de passes espirituais, onde pude sentir a ação dos Espíritos de forma mais ostensiva. Creio que o fato marcante para meu encantamento com a Doutrina foi ter conhecido Chico Xavier, naquele mesmo ano de 1977, quando eu tinha 18 anos. Foi marcante, para o resto da minha vida. 

O senhor atua no Centro Espírita Bênção de Paz, no Carrão. O que representa esse trabalho para você e qual é a importância de uma casa espírita na vida das pessoas que procuram orientação e acolhimento?
O trabalho no Centro Espírita Bênção de Paz representa um dos pilares sobre os quais busco encontrar o equilíbrio na minha vida. Acredito que esse balanço se firma sobre nossas vivências afetiva, espiritual e material, em seu amplo aspecto. O espiritual eu encontro de forma abundante nos trabalhos do Bênção, sejam eles espirituais ou assistenciais, já que a Casa possui trabalho ligado à infância e juventude. Também sob este ponto de vista, o trabalho assistencial amplo (não apenas circunscrito ao alimento e vestuário) sou da opinião de que ter uma Casa como o Bênção na Vila Carrão acaba se tornando de grande valia para nossa comunidade. Unindo as bases da Doutrina Espírita, com base no evangelho de Jesus Cristo, à prática do acolhimento desse público jovem tornam a Bênção de Paz uma casa capaz de influenciar a vida de milhares de pessoas, como ocorreu nestes 32 anos de existência.  

O senhor teve o privilégio de conhecer Chico Xavier de perto. Como aconteceu esse encontro e quais são as primeiras lembranças que vêm à sua memória quando pensa na convivência com ele?
Esse encontro aconteceu nas dependências do Centro Perseverança, creio que em 1977. No momento em que eu o vi entrando pelo corredor central do salão de palestras eu senti uma emoção como poucas vezes na vida. Chorei de uma forma que não conseguia explicar, afinal, não me acho tão sensível assim, rs. Fui apresentado a ele e conversamos sobre diversos temas, conversas essas que me marcaram para sempre. Na convivência que tive com ele, depois dessa data, eu só aprofundei a admiração e o sentimento de amor que nutro por ele até hoje. Foram inúmeros encontros em São Paulo, na casa dele em Uberaba, na Casa da Prece, que ele fundou e onde trabalhou até morrer, foram incontáveis encontros que sempre serviram de aprendizado, enlevo e direcionamento do que eu deveria fazer na Doutrina, que ele deixou claro: servir.

Quem conheceu Chico pessoalmente costuma destacar sua simplicidade, humildade e maneira de tratar as pessoas. O que mais chamou sua atenção nele durante o período em que teve contato direto com seu trabalho?
Sem dúvida, a humildade. O pensamento comum classifica uma pessoa humilde como aquela que não fala ‘não’ para nada, fala sempre muito baixinho, é quase que condescendente com tudo e com todos. Chico foi a pessoa mais amorosa que já vi, atendia a ricos e pobres com o mesmo cuidado e respeito, mas, sempre se posicionou sobre as múltiplas questões que lhe eram submetidas com firmeza, coerência e extremo sentimento de amor e fraternidade. Prova viva disso foi a participação dele nos dois programas Pinga Fogo, da extinta TV Tupi, em 1971. Curiosidade: o primeiro deles, em julho, estava previsto para durar uma hora. Durou três, marcando a maior audiência da televisão brasileira até aquele momento. Não é pouca coisa!    

Existe algum episódio, conversa, ensinamento ou gesto de Chico Xavier que tenha marcado particularmente a sua vida e que o senhor carrega até hoje?
Vários. Lembro-me de uma viagem à Uberaba, creio que no início dos anos 1980. Lá pelas tantas horas da madrugada da sexta para o sábado, através da mediunidade do Chico, uma menina que houvera desencarnado muito pequena, por causa de um acidente com um caminhão que tombou sobre ela, consolava seus pais presentes e, de forma singular, escreveu ao pai, pedindo que não levasse avante um projeto qualquer, que ela havia perdoado o motorista que dirigia o caminhão e coisas assim. No dia seguinte, fui à casa dele para almoçarmos juntos. Os pais da menina estavam presentes e o pai, numa conversa emocionada, confessou que – ralado pela dor da perda da pequena de forma trágica – havia iniciado as tratativas para mandar matar o motorista que permanecia preso no seu estado de origem. E que, depois da carta da filhinha, havia abandonado o projeto de vingança e se esforçaria para perdoar aquele homem, pedido que a pequena havia formulado de maneira expressa.

Mais do que o médium conhecido por milhões de pessoas, como o senhor descreveria o homem Chico Xavier para quem não teve a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente?
Um grande Ser Humano, isso mesmo, com letras maiúsculas. Sabia ser pai, avô, tio, irmão, servidor do Cristo, numa palavra. Incapaz de criticar gratuitamente a quem quer que fosse. De uma inteligência e cultura que eu jamais vi. Puxava um assunto numa roda de amigos e, se ninguém desse continuidade, ele logo mudava de prosa para não parecer arrogante. Não foi em vão que teve o nome cogitado para receber o Prêmio Nobel da Paz em 1.981. Eu digo sem afetação: conhecer e conviver com Chico Xavier foi uma das coisas mais espetaculares que ocorreram na minha vida.

O senhor promove viagens a Uberaba para apresentar às pessoas parte do legado de Chico Xavier. O que os participantes encontram nessa experiência e por que o senhor considera importante manter viva essa memória?
Eu creio que o legado deixado por ele precisa ser lembrado, mostrado e experimentado, especialmente para as novas gerações, sejam elas espíritas ou não. Percorrer os caminhos que ele fez, andar pelas Casas onde viveu e trabalhou, contando as histórias que presenciei nos exatos lugares onde aconteceram, legitimam ainda mais essa experiência, tanto que as pessoas sempre se emocionam de uma forma estupenda. As pessoas experimentam o que chamamos de “vibração do amor de Chico Xavier”. E isso, acredite, muda vidas. Eu já vi acontecer muitas vezes.

Em uma época marcada por ansiedade, conflitos, intolerância e tantas dificuldades emocionais, qual mensagem da espiritualidade e, especialmente, do legado de Chico Xavier o senhor acredita que continua sendo necessária para a sociedade?

Aquela frase bem conhecida dele, acho bem apropriada: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora a fazer um novo fim.” A frase é cheia de consolação, esperança, inclusão e amor. Tudo que o Chico exalou a vida inteira.

Para encerrar: olhando para sua própria caminhada, para a mediunidade e para tudo o que aprendeu com Chico Xavier, que mensagem o senhor deixaria para alguém que está começando a buscar respostas dentro da espiritualidade?
Leia, e estude Allan Kardec. Só ler – apesar de meritório – não basta! A Doutrina Espírita é moderna, inclusiva, consoladora, capaz de explicar de forma racional os aparentes dilemas e contradições da vida das pessoas neste planeta. Por acreditarmos viver num planeta dito de provas e expiações, nada mais necessário do que um “Consolador Prometido”, como o Espiritismo foi anunciado e é compreendido por seus seguidores. Não sei se as pessoas encontrarão respostas para tudo o que desejam. Mas, certamente, irão encontrar uma bússola segura para percorrer os caminhos da vida, muitas vezes difíceis e pedregosos. E, ouso repetir: não é pouca coisa!

Entrevista: Fernando Aires. Foto: Divulgação.

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