segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Tarcísio critica vandalismo na Paulista, mas comparação com 8 de janeiro expõe contradições no discurso político

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), voltou a colocar o debate político no centro das discussões ao criticar os episódios de vandalismo registrados durante a manifestação em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizada no domingo (11), na Avenida Paulista. Em vídeo publicado nas redes sociais na segunda-feira (12), o governador condenou as pichações e os atos de depredação e afirmou que manifestações da direita realizadas no mesmo local ocorreram sem problemas.

“Quem precisa quebrar para ter razão, já perdeu o argumento”, declarou Tarcísio, que também associou a presença do PT a episódios de vandalismo e intolerância. A fala, no entanto, abre espaço para um questionamento: qual critério deve ser utilizado para avaliar manifestações políticas, independentemente do grupo ideológico envolvido?

O que aconteceu na Avenida Paulista?
Durante a dispersão do ato pró-Lula, imagens que circularam nas redes sociais mostraram pessoas sobre a cobertura de vidro de uma entrada da estação Trianon-Masp, além de uma pichação com a frase “Viva a Revolução”. A Polícia Militar informou ter registrado ocorrências de tumulto, pichações e depredação em pontos da região.

O Metrô de São Paulo, por sua vez, informou ao UOL que, até o início da noite, não tinha registros internos de vandalismo ou danos nas estações da Paulista. A reportagem também destacou que não havia confirmação sobre quando a pichação foi feita ou quem foi responsável por ela.

Os registros merecem apuração e eventual responsabilização dos envolvidos. Isso, porém, não elimina a necessidade de contextualizar a dimensão dos acontecimentos nem de aplicar o mesmo rigor ao analisar episódios semelhantes protagonizados por grupos políticos diferentes.

8 de janeiro: destruição de prédios públicos e prejuízos milionários
Em 8 de janeiro de 2023, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Palácio do Planalto, em Brasília. Os invasores quebraram vidraças, danificaram móveis, ocuparam plenários, defecaram e urinaram em ambientes internos e comprometeram obras de arte e objetos históricos.

Segundo o Ministério Público Federal, os prejuízos foram estimados em aproximadamente R$ 12 milhões no STF, R$ 4,9 milhões no Congresso e R$ 4,3 milhões no Palácio do Planalto. Os ataques foram acompanhados de investigações e processos judiciais relacionados à invasão das instituições e à tentativa de ruptura da ordem democrática.

A comparação não significa equiparar automaticamente os episódios da Paulista aos ataques de Brasília. A escala dos danos, os locais atingidos e o contexto são distintos. O 8 de janeiro representou uma ofensiva contra as sedes dos Três Poderes, com consequências institucionais que ultrapassaram a questão patrimonial.

Tarcísio condenou os ataques de Brasília, mas defendeu olhar para frente
É importante registrar que Tarcísio não permaneceu completamente em silêncio sobre o 8 de janeiro. Em entrevista concedida em janeiro de 2023, o governador repudiou os ataques e afirmou que esse tipo de ação precisava ser combatido. Na mesma ocasião, porém, defendeu que o país deveria “olhar para frente” e buscar a pacificação.

O ponto que merece debate, portanto, não é afirmar que o governador nunca condenou a depredação promovida por bolsonaristas, mas questionar a diferença de ênfase e de tratamento entre os episódios. Ao criticar a manifestação pró-Lula, Tarcísio fez uma associação direta entre o comportamento de alguns participantes e o campo político adversário, além de comparar o ocorrido com manifestações da direita.

Essa abordagem levanta uma questão legítima: o governador aplica o mesmo padrão de cobrança quando os responsáveis por atos de vandalismo pertencem a grupos políticos próximos de sua trajetória ou de suas alianças?

O patrimônio público não pode ser defendido seletivamente
A depredação de espaços públicos deve ser condenada independentemente de quem a pratique. Pichações, danos ao patrimônio e comportamentos que coloquem pessoas em risco não se tornam aceitáveis por acontecerem em uma manifestação com a qual alguém concorda. Da mesma forma, os ataques de 8 de janeiro não podem ser relativizados por terem sido cometidos por apoiadores de um campo político específico.

Como governador, Tarcísio tem responsabilidade pública que vai além da disputa partidária. A crítica a atos de vandalismo é legítima, mas ganha consistência quando acompanhada de critérios claros, contextualização dos fatos e tratamento coerente de episódios distintos.

A questão que fica é direta: ao condenar o vandalismo na Paulista, o governador está defendendo um princípio válido para todos ou utilizando um episódio para reforçar a disputa política com seus adversários?

A resposta depende não apenas das declarações de ocasião, mas também da coerência demonstrada diante de atos semelhantes, independentemente de quem esteja envolvido.

Reportagem: Da redação. Foto: Divulgação.

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